Relações Saudáveis
O que faz de uma relação um lugar seguro?
Uma relação segura é mais do que um lugar onde somos amados. É um espaço onde podemos existir plenamente, sem medo do julgamento, do abandono ou da rejeição. É onde o amor deixa de ser uma condição e se torna um convite à vulnerabilidade.
Por Carina Rodrigues Nave
No trabalho terapêutico, eu vejo frequentemente a importância de relações seguras na cura das feridas emocionais. Quando vivemos num espaço relacional onde a segurança e o amor estão ausentes, desenvolvemos estratégias de sobrevivência – como isolamento, desconfiança, ou auto-proteção. Eessas defesas ajudam-nos a lidar com a dor, mas acabam por nos desconectar de nós mesmos e dos outros.
Então, o que faz de uma relação um lugar seguro?
1. Ouvirmo-nos para além das palavras
As relações seguras têm como base uma escuta profunda. E isto não é apenas ouvir o que o outro diz, mas também perceber o que está nas entrelinhas – as emoções, os medos, as histórias que moldaram a forma como o outro vive e ama. É perguntar: “O que estás a sentir agora? De que precisas para te sentires seguro comigo?”
A segurança emocional nasce quando nos sentimos vistos e compreendidos, mesmo nos nossos momentos mais vulneráveis.
2. Aceitar sem condições
A aceitação incondicional é um alicerce importantíssimo de uma relação segura. E isto não significa concordar com tudo, mas sim permitir que o outro seja quem é, sem tentar moldá-lo ao que esperamos dele. É dizer: “Estou aqui contigo, mesmo quando estás a lutar contra ti mesmo.”
Cada pessoa carrega dentro de si partes que protegem e partes que foram feridas. Numa relação segura, há espaço para todas essas partes existirem – até mesmo as que têm medo, as que se defendem ou as que precisam de mais tempo para confiar.
3. Reconhecer as feridas do passado
Nenhuma relação existe isolada. Todos trazemos histórias de outras ligações que moldam a forma como amamos hoje. Às vezes, carregamos medos de rejeição ou abandono que nem sempre têm origem na relação presente.
Por isso, é essencial dar espaço a estas histórias e integrá-las, mas sem que elas dominem a relação atual. Quando reconhecemos estas narrativas, conseguimos dizer: “Eu vejo a tua dor, e não preciso de te abandonar por causa dela.”
4. Reparar as falhas
Nenhuma relação é perfeita. Mas o que distingue uma relação segura é a capacidade de reparar. Há espaço para pedir desculpa, para reconhecer quando falhamos e para reconstruir a confiança.
A reparação é um dos gestos mais importantes numa relação. No fundo, ela passa a mensagem de que “A nossa ligação é mais importante do que o nosso conflito.”
5. Criar espaço para a vulnerabilidade
Muitas vezes, sentimos que precisamos de ser fortes, de esconder o que nos magoa, para não sobrecarregar a relação. Mas numa relação segura, a vulnerabilidade não é vista como uma fraqueza – é um ato de coragem. É dizer: “Eu confio o suficiente para te mostrar quem sou.”
Como psicoterapeuta, eu testemunho todos os dias o poder transformador da vulnerabilidade. Porque é quando te permites ser visto/a que começas a curar as feridas mais profundas.
Uma relação segura, onde cabem todas estas coisas, não se constrói num dia. É um processo contínuo de escuta, aceitação e reparação. Mas, quando a construímos, ela torna-se um lugar onde não apenas sobrevivemos – mas onde florescemos.
Se estás a lutar para criar segurança nas tuas relações, lembra-te: tu não estás sozinho/a. A terapia pode ser um lugar para explorar as histórias que trazes contigo e ajudar-te a criar as conexões que mereces.
Por isso, hoje, convido-te a refletir: qual é o pequeno passo que podes dar agora para transformar a tua relação num lugar mais seguro?