Carina Rodrigues Psicologia

Trauma e Narrativas de Vida

Como é que o trauma molda a nossa história e a visão que temos de nós mesmos, dos outros e das relações?

Cada um de nós vive dentro de histórias. Histórias que contamos sobre quem somos, sobre as nossas relações e sobre o mundo à nossa volta. Mas e quando essas histórias ficam presas às mágoas do passado? Quando tudo o que conseguimos ver é o trauma que vivemos ou as feridas que carregamos?

Por Carina Rodrigues Nave

Em terapia narrativa, chamamos a isto narrativas dominantes saturadas no problema. São as histórias que o trauma relacional inscreve na nossa vida – histórias de abandono, de rejeição, de perda, de dor. Histórias que, com o tempo, começam a definir a forma como nos vemos e como nos relacionamos com os outros.

Trauma relacional é tudo aquilo que nos acontece quando somos feridos no espaço mais vulnerável: as relações. Pode surgir através do abandono, da rejeição, de um amor inconsistente ou de dinâmicas familiares tóxicas.

Essas experiências inscrevem-se na nossa história e dão origem a mensagens internas que, muitas vezes, ecoam assim:

  • “Eu não sou digno de amor.”
  • “Vou acabar sozinho.”
  • “As pessoas que eu amo acabam por me magoar.”

Estas mensagens transformam-se em narrativas dominantes que começam a comandar a nossa vida. Passamos a interpretar novas experiências de vida através do trauma antigo, perpetuando os mesmos padrões de dor, medo e desconexão.

Mas e quais são os sinais de uma narrativa saturada no problema

  1. O trauma define a tua identidade:
    O que te aconteceu deixa de ser um evento no teu passado e torna-se uma descrição de quem és, como por exemplo: “Eu sou uma pessoa que nunca consegue manter uma relação.”

  2. Vives em ciclos repetitivos:
    As narrativas saturadas impedem-te de ver novas possibilidades. Mesmo quando tentas mudar, acabas por recriar padrões que confirmam as histórias antigas.

  3. As relações tornam-se um reflexo da dor:
    As feridas não curadas afetam a forma como nos conectamos com os outros. Confiar torna-se difícil, e os vínculos emocionais ficam fragilizados pelo medo.

E como podes reescrever estas narrativas?

A terapia narrativa oferece-nos uma possibilidade transformadora: se somos feitos de histórias, podemos reescrevê-las.

  1. Desconstruir o problema:
    O primeiro passo é separar o problema da tua identidade. O que te aconteceu não é quem tu és.

  2. Encontrar os momentos de exceção:
    Mesmo nas histórias mais saturadas pelo problema, existem momentos que o contradizem. Estas exceções são a base para uma nova narrativa que podes construir a partir daí.

  3. Reconectares-te com o teu eu e com os outros:
    Aqui exploramos a forma como o trauma fragmenta partes de nós mesmos. E reconhecer estas partes – as que se magoaram, as que protegeram e as que ainda procuram amor – é essencial para a cura. A reconexão começa em ti e expande-se para os outros.

Estas nossas histórias saturadas no problema são como um eco do trauma relacional. Mas a boa notícia é que não estás condenado a viver dentro dessas histórias para sempre. Com a coragem de revisitar as tuas narrativas com curiosidade e compaixão, podes começar a reescrever a tua história de uma forma que te devolva agência, amor e liberdade.

Se sentes que estás preso/a numa história que não te serve, lembra-te que a terapia pode ser o lugar onde o passado deixa de ser uma prisão e se torna o ponto de partida para a tua transformação. E eu estou aqui para te ajudar nesse caminho!